Artigos Científicos I

A implementação do programa de prevenção à febre reumática em um hospital infantil

The implementation of the program for prevention of rheumatic fever in a hospital child

Janeiro/2012

Bárbara Pompeu Christovam – Doutora em Enfermagem. Coordenadora do Curso de Graduação e Licenciatura em Enfermagem da Universidade Federal Fluminense. Vice-coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Cidadania e Gerência na Enfermagem (NECIGEN)
Zenith Rosa Silvino - Doutora em Enfermagem. Professora Titular da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do NECIGEN
Tathiana Silva de Souza Martins – Mestre em Enfermagem Assistencial. Doutoranda em Enfermagem na USP. Enfermeira da Gerência de Risco do Instituto de Traumato-Ortopedia (INTO). Membro do NECIGEN
Leandro Silva Dias – Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Enfermagem Assistencial da UFF. Enfermeiro do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Membro do NECIGEN

Resumo. Trata-se de um estudo descritivo que tem como objetivo relatar as etapas de implementação do Programa de Prevenção à Febre Reumática (PREFERE) na Emergência Pediátrica de um Hospital Infantil, com toda a equipe de enfermagem do setor durante o ano de 2006. A importância desse estudo está na possibilidade de minimizar o prejuízo à saúde das crianças e adolescentes portadores de Febre Reumática (FR), a partir, do treinamento da equipe para identificar os sinais e sintomas de tal patologia e o preparo e administração corretos da medicação de escolha diante da afecção já instalada. As atividades foram desenvolvidas através da observação das equipes de enfermagem durante o atendimento as crianças portadoras de FR, elaboração de estratégias para sanar as dúvidas identificadas na observação e implementação de treinamento em serviço. Os resultados obtidos com esta modalidade de implantação do PREFERE mostrou-se favorável como estratégia preventiva das complicações da Febre Reumática, bem como das reações decorrentes do preparo e administração incorretos da terapêutica prescrita. Conclui-se que a implantação do PREFERE, junto à equipe de enfermagem, só foi possível porque a mesma mostrou-se interessada em adquirir novos conhecimentos e estava disposta a modificar sua atuação diante das práticas assistenciais.
Palavras-chaves: Assistência de Enfermagem, Febre Reumática, Enfermagem Pediátrica.

Abstract. It is a descriptive study that aims to report on steps to implement the Program for Preventing Rheumatic fever (PREFERE) in a Pediatric Emergency Children's Hospital, with the whole nursing staff in the sector during 2006. The importance of this study is to minimize the possibility of injury to health of children and adolescents with rheumatic fever (RF), since, the training team to identify the signs and symptoms of the condition and the correct preparation and administration of the medication of choice in the face of illness already installed. The activities were conducted through the observation of the teams of nursing care for the children suffering from RF, developing strategies to deal with the questions identified in the observation and implementation of in-service training. The results obtained with this method of deployment of PREFERE was favorable as preventive strategy of complications of rheumatic fever as well as the reactions arising from incorrect preparation and administration of therapy prescribed. It follows that the deployment of prefers, with the nursing staff, was possible only because it proved to be interested in acquiring new knowledge and willingness to change his actuation in the face of practical assistance.
Keywords: Assistance of Nursing, Rheumatic Fever, Pediatric Nursing.


Introdução

    A Febre Reumática (FR) é uma complicação tardia, inflamatória, não supurativa, de base imunológica recidivante e que, freqüentemente, atinge indivíduos de 5 a 15 anos de idade, de ambos os sexos, após infecções repetidas de faringoamigdalites pelo estreptococo beta hemolítico do grupo A. É a principal causa de doença cardiovascular adquirida na infância e adolescência. Caracterizam-se pelo acometimento do coração, articulações, sistema nervoso central, pele e tecido subcutâneo 1.
    É importante lembrar que tal afecção ainda constitui um sério problema de saúde pública. Cerca de 30 milhões de pessoas são acometidas pela doença em todo o mundo. Em países desenvolvidos, a prevalência da doença vem diminuindo em resposta às melhorias das condições sócio-econômicas, culturais e do uso de antibióticos para infecções respiratórias. No Brasil, a prevalência da febre reumática é de 3 a 5% de crianças e adolescentes 1.
    A prevenção primária da febre reumática implica em diagnóstico preciso e tratamento apropriado das infecções estreptocócicas da boca, garganta e faringe. O objetivo desta é a erradicação do estreptococo. O diagnóstico diferencial entre amigdalite viral e estreptocócica deve ser feito de acordo com bases clínicas, sendo que a presença de linfonodos cervicais dolorosos em crianças maiores de dois anos com febre alta, com ou sem pontos purulentos nas amígdalas, sugerem amigdalite estreptocócica, enquanto a presença de coriza, tosse, rouquidão ou diarréia podem indicar amigdalite viral. O tratamento recomendado para amigdalites estreptocócicas é Penicilina Benzatina em dose única. Em pacientes alérgicos à penicilina ou que sofram doença hemorrágica, a melhor opção para substituir a penicilina G é a Eritromicina por via oral 40 mg/Kg/dia, dividida em 4 doses por dia, durante 10 dias 2.
    A medicação de escolha para a prevenção da FR é a penicilina benzatina. Ela se apresenta sob a forma de frasco-ampola com 600.000 UI ou 1.200.000 UI. Sua dosagem em crianças menores é de 600.000 unidades; e crianças maiores que pesam mais de 27 Kg, dose única de 50.000 unidades / Kg, ou seja, 1.200.000 UI. Uma única aplicação a cada três semanas garante níveis séricos adequados da penicilina, evitando novas infecções pelo Streptococcus beta hemolítico do grupo A. Essa recomendação é referendada pela Organização Mundial da Saúde e normalizada pelo Ministério de Saúde 3.
    Desta forma, o Ministério da Saúde instituiu o Programa de Prevenção à Febre Reumática (PREFERE) com o objetivo de estabelecer um programa nacional de prevenção primária a tal patologia através do reconhecimento precoce e tratamento das faringoamigdalites bacterianas, e do diagnóstico e encaminhamento dos casos de febre reumática entre escolares, contando com a parceria de setores governamentais e da sociedade civil, de forma a facilitar sua implementação 4.
    Durante a atuação, no setor de emergência, de um Hospital Infantil no Município de Niterói, foi necessário implementar o PREFERE. No entanto, observou-se um grande desafio: treinar a equipe de enfermagem não só no que concernia à identificação precoce dos sinais e sintomas relacionados à FR, mas também quanto aos cuidados no preparo, administração e acondicionamento da Penicilina Benzatina.
Assim, este estudo incide sobre uma experiência profissional, trazendo como objetivo: relatar as etapas de implementação do Programa de Prevenção à Febre Reumática (PREFERE) na Emergência Pediátrica de um Hospital Infantil.
    Tal trabalho justifica-se pela possibilidade de minimizar o prejuízo à saúde das crianças e adolescentes portadores de FR, a partir, do treinamento da equipe de enfermagem para a identificação dos sinais e sintomas desta patologia e o preparo/ administração correta da medicação de escolha diante da afecção já instalada.

O Caminho Metodológico Percorrido
        Trata-se de um estudo descritivo, no qual se relata a vivência durante a implementação do PREFERE na Emergência Pediátrica (EP). O local de realização do estudo foi um Hospital Infantil localizado no Município de Niterói.
        Foram observadas todas as condutas éticas na descrição das ações vivenciadas no cenário de estudo, preservando-se o anonimato das equipes de enfermagem. Por tratar-se da descrição de uma prática profissional não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.
        A assistência prestada na EP é desenvolvida por uma equipe multidisciplinar; porém para fins deste trabalho foi caracterizada apenas a equipe de enfermagem, pois se entende que é a mesma a principal responsável pela execução das ações preconizadas pelo PREFERE, bem como pelo preparo e administração da penicilina benzatina. Desta forma, tinham-se na EP 06 equipes de enfermagem, composta por enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem, que cumpriam uma carga horária de 30 horas semanais.
      A estratégia para a implementação do PREFERE foi realizada com toda a equipe de enfermagem da EP, uma vez por semana e com duração de aproximadamente 30 minutos, desenvolvendo-se ao longo do ano de 2006.
     As atividades foram desenvolvidas a partir de três momentos: No primeiro momento, sentiu-se a necessidade de realizar uma observação das equipes de enfermagem durante o atendimento as crianças portadoras de FR. Esperava-se assim analisar o grau de conhecimento dessa população acerca de tal patologia e de sua terapêutica, antes de iniciarmos todo o processo de educação. Atentou-se principalmente para a maneira como ocorria o preparo e a administração da penicilina benzatina, pois se acreditava ser esta a principal atuação da equipe de enfermagem no PREFERE, visto que, as outras ações do projeto são eminentemente médicas, já que estão relacionadas ao diagnóstico precoce da FR.
     Durante a observação identificou-se que a maioria dos componentes das equipes de enfermagem: desconheciam o que era a FR, apresentavam dúvidas durante o preparo e a administração da penicilina benzatina e não compreendiam a importância da administração desta droga de maneira correta e no tempo certo como modo de prevenção das complicações da FR.
     A partir das dificuldades observadas e dos objetivos estabelecidos pelo PREFERE, seguiu-se então para o segundo momento, no qual foram elaboradas estratégias (palestras e aulas) para sanar as dúvidas identificadas e orientar quanto à importância da implementação correta da terapêutica estabelecida na prevenção das complicações da FR. No entanto, houve a necessidade de montar, para esse setor, um guia para a orientação no preparo e administração corretos da penicilina benzatina, a fim de melhorar não só a qualidade da assistência de enfermagem prestada, como também, otimizar o tempo e diminuir os custos.
   Assim, após a elaboração do guia, deu-se início ao terceiro e último momento, no qual, retornou-se a EP para implementá-lo junto à equipe de enfermagem.
   A seguir, destacam-se os principais pontos inseridos no: “guia para preparo e administração da penicilina benzatina na EP”, são eles:
● Quanto ao preparo: Para a reconstituição da penicilina benzatina - aspirar à solução de água destilada com agulha 30X8; Introduzir a solução de escolha lentamente no frasco de antibiótico, a fim, de evitar a formação de espuma; Após a reconstituição aspirar à solução com a seringa, acima do bico da seringa; Antes de administrar o medicamento, trocar a agulha, homogeneizar a solução, não colocar a solução no bico da seringa e administrar o medicamento rapidamente. ATENÇÃO:
1)    O gelo pode ser utilizado para a analgesia no local antes da injeção;
2)    O Ministério da Saúde preconiza que a reconstituição da droga em questão seja feita somente utilizando água destilada, não permitindo a associação da mesma a anestésicos.


    Durante a implementação do guia, enfrentou-se algumas dificuldades, como adequação do espaço físico para o desenvolvimento das demonstrações e orientações. Tal treinamento foi realizado no posto de enfermagem durante o atendimento efetivo de crianças portadoras de FR. Além disso, alguns membros das equipes de enfermagem não participaram de tal processo, visto que se encontravam de licença médica, licença maternidade e férias.

Considerações Finais
    A operacionalização do estudo mostrou-se bastante favorável como uma estratégia preventiva das complicações da FR, bem como das complicações oriundas do preparo e administração incorretos da terapêutica prescrita.
    Assim, acredita-se que a implementação do PREFERE, junto à equipe de enfermagem, só foi possível porque a mesma mostrou-se interessada em adquirir novos conhecimentos, aceitou todas as orientações fornecidas e estava disposta a modificar sua atuação diante de práticas assistenciais, muitas vezes arraigada.
    Diante do exposto, constata-se a necessidade de promover treinamentos como meio de melhorar a qualidade da assistência de enfermagem prestada à clientela pediátrica, otimizar o tempo dos profissionais e reduzir os custos oriundos de procedimentos incorretos. 
    É necessário, nos serviços de saúde, que seja instituída uma política de educação permanente, a fim de suprir as lacunas e também fazer parte do processo de trabalho dos trabalhadores de saúde, em que a reflexão e a atualização de suas práticas seja feita no seu cotidiano 6.
    Desta forma, acredita-se que as atividades relacionadas ao exercício da Educação Permanente têm fundamental importância na qualificação dos profissionais de saúde já que novas técnicas e tecnologias estão sempre sendo inseridas nesta área.

Referências
1. Borges F, Barbosa MLA. Borges RB, Pinheiro OC, Cardoso C, Bastos C, et al. Características clínicas demográficas em 99 episódios de febre reumática no Acre, Amazônia Brasileira. Arq. Bras. Cardiol.  Feb. 2005, vol.84 (2): 111-114. Available from: http://www.scielo.br/pdf/abc/v84n2/a04v84n2.pdf. Acess on: 2008 Oct.
2. Gomides S. Febre Reumática. Available from: www.manuaisdecardiologia.med.br/Reumato/FR5.htm. Acess on: 2008 Oct.
3. Sociedade Brasileira de Pediatria. Pereira BAF. Projeto Diretrizes 2002 - Febre Reumática. Available from: http://www.projetodiretrizes.org.br/projeto_diretrizes/051.pdf. Acess on: 2008 Oct.
4. Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Cardiologia Laranjeiras. Programa PREFERE. Febre Reumática no Brasil- Estratégias para Prevenção, 2004.
5. Giovani AMM. Enfermagem, cálculo e administração de medicamentos. 12 ed. São Paulo: Scrinium, 2006.
6. Lino M.Backes V.Schmidt S.Ferraz F.Prado M.Martins S. The reality of Nursing Continuing Education in the Public Health Services. A descriptive study Online Brazilian Journal of Nursing [serial on the Internet]. 2007 January 20; [Cited 2008 October 27]; 6(0):[about ## p.]. Available from: http://www.uff.br/objnursing/index.php/nursing/article/view/619

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