Artigos Científicos II

GERENCIAMENTO DE EVENTOS ADVERSOS RELACIONADOS A MEDICAMENTOS: REFLEXÕES E DESAFIOS PARA O ENFERMEIRO

MANAGEMENT OF ADVERSE EVENTS RELATED TO DRUGS: REFLECTIONS AND CHALLENGES FOR THE NURSE

GESTIÓN DEL EVENTOS ADVERSOS RELACIONADOS CON LAS DROGAS: REFLEXIONES Y DESAFIOS PARA LA ENFERMERÍA


Janeiro/2012

Tathiana Silva de Souza Martins – Enfermeira do INTO-MS, Mestre em Enfermagem pela UFF, Doutoranda em Enfermagem na USP.
Zenith Rosa Silvino – Professora Titular da UFF, Doutora em Enfermagem.
Ana Paula Amorim Moreira – Enfermeira do HUAP-UFF e Mestranda do MPEA-UFF.
Leandro Silva Dias  - Enfermeiro do HUPE e Mestrando do MPEA UFF.

Resumo. O estudo objetiva realizar uma reflexão e pontuar os desafios que permeiam às ações gerenciais do enfermeiro no que tange os Eventos Adversos a Medicamentos, enfocando um cuidado seguro e livre de danos ao cliente. Entende-se como gerenciamento o conjunto de intervenções com atuação no desfecho. Assim, gerenciar esse tipo de evento engloba a leitura da prescrição, o aprazamento, o preparo e a administração do fármaco, no intuito de prevenir as possíveis intercorrências durante todo o processo. A realidade, conforme literatura, precisa ser modificada através da incorporação de tecnologias e do conhecimento farmacológico aprofundado junto aos profissionais responsáveis pelo aprazamento, preparo e administração dos fármacos, pois só assim o enfermeiro poderá prestar e gerenciar uma assistência segura e livre de danos ao cliente.
Descritores: Enfermagem; Gerenciamento de Segurança; Prevenção de Acidentes; Administração de Medicamentos; Uso de Medicamentos.

Resumen. El estudio tiene como objetivo la discusión y señalar los desafíos que atraviesan las acciones de gestión de la enfermera en términos de eventos adversos de medicamentos, centrándose en la atención segura y libre de daños al cliente. Se entiende como el conjunto de las intervenciones de gestión en los resultados de rendimiento. Así, la gestión de este tipo de evento incluye la lectura de la receta, citas, preparación y administración de la droga con el fin de evitar posibles problemas durante el proceso. La realidad, como la literatura, debe ser modificada mediante la incorporación de la tecnología y en el conocimiento en profundidad farmacológicas entre los profesionales responsables de los nombramientos, la preparación y administración de los medicamentos, porque sólo entonces la enfermera puede ofrecer y gestionar el seguro y libre de daño para el paciente .
Descriptores: Enfermería; Gestión de la Seguridad; Prevención de Accidentes; La administración de Medicamentos; Utilización de Medicamentos.


Abstract. The study aims at a discussion and point out the challenges that permeate the management actions of the nurse in terms of adverse drug events, focusing on care safe and free of damage to the client. Is understood as the set of management interventions on performance outcome. Thus, managing this type of event includes the reading of the prescription, appointments, preparation and administration of the drug in order to prevent possible problems during the process. The reality, as literature, must be modified through the incorporation of technology and in-depth pharmacological knowledge among professionals responsible for appointments, preparation and administration of drugs, because only then the nurse may provide and manage the safe and free from harm to the patient.
Descriptors: Nursing; Safety Management; Accident Prevention; Administration of Medications; Drugs Utilization.

INTRODUÇÃO
    É fato que a administração de medicamentos é uma ação de extrema importância no tratamento de pacientes, seja dentro ou fora do hospital. No entanto, no ambiente hospitalar essa ação é atribuída quase que exclusivamente a equipe de enfermagem, que está invariavelmente sob o gerenciamento do enfermeiro. Sendo assim, o enfermeiro deve possuir conhecimentos suficientes e profundos que possam embasar de forma eficaz a terapia medicamentosa.
    As abordagens existentes da literatura em relação à responsabilidade do enfermeiro frente à terapia medicamentosa são bastante variadas. Iniciam-se no aprazamento seguro da prescrição, perpassam pelo preparo e administração dos fármacos e terminam em reflexões sobre os eventos adversos que podem envolver uma etapa ou parte do processo.
    Apesar de importantes, esses conhecimentos tão específicos são pouco valorizados pelo aluno no curso de graduação em enfermagem. O currículo que inclui aulas genéricas de farmacologia, ministrada em fase tão precoce, na maioria das vezes, não é capaz de despertar a importância de tal prática, o que só será percebida durante a prática profissional, detectando que o conhecimento encontra-se muitas vezes de forma insuficiente e insatisfatória(1).
     Destaca-se que o pouco conhecimento, somado à falta de atenção é visto como uma das principais causas de eventos adversos relacionados a medicamentos, já que o conhecimento de farmacologia possibilita que o enfermeiro correlacione a droga à doença, aos resultados de exame e estado clínico do paciente, além de promover a detecção precoce de contra-indicações e reações adversas(2).
    Entende-se como evento adverso (EA) o aparecimento de um problema de saúde causado pelo cuidado e não pela doença de base, ou seja, uma lesão não intencional que resultou em incapacidade temporária ou permanente e/ou prolongamento do tempo de permanência ou morte como conseqüência do cuidado prestado. Os EA são considerados como qualquer efeito não desejado em humanos pelo uso de produtos sob vigilância sanitária. Destes, incluem-se os casos que podem estar presentes durante um tratamento sem necessariamente possuir um nexo causal com o ocorrido. Dessa forma todo evento adverso pode ser considerado como uma suspeita de reação adversa.
   Podem ser oriundos de procedimentos cirúrgicos, utilização de medicamentos, procedimentos médicos, tratamento não-medicamentoso, demora ou incorreção no diagnóstico. Sabe-se que os eventos adversos relacionados a medicamentos (EAM) são responsáveis por cerca de 20% do total de casos observados, atrás apenas daqueles associados a procedimentos cirúrgicos(3).

                                                                         Fig.1. Fonte NOTIVISA – ANVISA, 2010(4).



  Os EAM podem decorrer da utilização adequada, inadequada, ou mesmo, da falta de acesso àqueles fármacos clinicamente necessários(5).  São subdivididos em dois grupos: o primeiro, denominado reações adversas a medicamentos (RAM), diz respeito ao risco inerente frente à utilização adequada de medicamentos, portanto, inevitáveis; o segundo definido como erros de medicação, entendido como qualquer evento passível de prevenção, decorrentes do uso inadequado ou não utilização de medicamentos necessários, portanto, possivelmente relacionado com falhas nos procedimentos(6).
  Aliando o contexto supracitado à rotina de trabalho dos enfermeiros, percebe-se a evidente escassez de conhecimentos mais aprofundados dos mesmos em relação aos medicamentos, seu aprazamento, preparo, administração e os EAM. Desta forma, o presente estudo tem como objetivo realizar uma reflexão e pontuar os desafios que permeiam às ações gerenciais do enfermeiro no que tange os EAM, enfocando um cuidado seguro e livre de danos ao cliente.

AS AÇÕES GERENCIAIS DO ENFERMEIRO NO CONTEXTO DOS EVENTOS ADVERSOS A MEDICAMENTOS E DA SEGURANÇA DO PACIENTE
  Sabe-se que o enfermeiro é um profissional que acumula muitas funções em suas atividades diárias, pois além da responsabilidade pela assistência em si, ainda supervisiona a sua equipe, presta cuidado a pacientes com maior nível de complexidade, executa funções administrativas relacionadas a recursos humanos e materiais e deve saber gerenciar os eventos adversos relacionados aos medicamentos (EAM). Essa sobrecarga de atividades pode ser uma das justificativas para que o enfermeiro não se aprofunde em estudos farmacológicos. Soma-se a isso a dificuldade de associar a farmacologia aprendida à prática clínica(1).
  No entanto nas instituições brasileiras, o ato de preparar e administrar os medicamentos são, em sua maioria, delegados ao auxiliar/técnico de enfermagem, profissionais que possuem conhecimento limitado de farmacologia. Assim, o enfermeiro não se sente responsável por tal processo, limitando-se a supervisionar a ação dos auxiliares e técnicos de enfermagem apenas conferindo o cumprimento da prescrição e/ou o balanço hídrico do paciente.
  Acredita-se que entre os EAM o mais importante é o erro de medicação por diversos fatores como: ser um indicador significante da qualidade da assistência de enfermagem, porque a identificação de suas causas, índices e conseqüências é uma ação de extrema importância para as instituições hospitalares e principalmente por ser evitável. Os erros de medicação podem estar presentes em qualquer etapa do processo da administração dos medicamentos, desde a prescrição, passando pela preparação e dispensação, como também no gerenciamento e monitoramento(7-8).
  Entende-se como gerenciamento o conjunto de intervenções com atuação no desfecho(6). Desta forma, pode-se afirmar que gerenciar a assistência compreende interligá-la aos fins da enfermagem, utilizá-la como instrumento capaz de auxiliar no desenvolvimento da enfermagem e no planejamento de suas tarefas. O enfermeiro deverá aplicar a criatividade para a tomada de decisões, para adequar os recursos materiais e humanos com a finalidade da execução de uma assistência planejada e com qualidade(9).
  No que tange os EAM, o gerenciamento envolve tanto o acompanhamento dos fatores que influenciam sua ocorrência como os procedimentos adotados após observação dos casos(10).
  Gerenciar esse tipo de evento engloba a leitura da prescrição, o aprazamento, o preparo e a administração do fármaco, no intuito de prevenir as possíveis intercorrências durante todo o processo. Assim, para garantir a segurança do cliente, compete ao enfermeiro também observar reações adversas durante e/ou após a administração da droga e saber como intervir diante da ocorrência das mesmas.
  Várias são as medidas referenciadas na literatura como estratégias para a redução e prevenção dos erros de medicação nas instituições hospitalares, sendo uma delas o investimento em tecnologias tais como a implantação da prescrição médica eletrônica, do código de barras, da automatização da dispensação e do sistema de dispensação de medicamentos por dose unitária, além do uso de bombas de infusão “inteligentes”(11).
   Muitos são os desafios que permeiam a ações gerenciais do enfermeiro a fim de evitar os EAM e garantir a segurança do paciente. No entanto, antes de utilizar-se das tecnologias disponíveis é preciso que o enfermeiro entenda a importância de implementar medidas simples como: avaliação constante das condições de trabalho, para propiciar um ambiente seguro para o preparo e administração dos medicamentos e a garantia de cursos de aperfeiçoamento e reciclagem aos integrantes da equipe de enfermagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
    Fica claro que a assistência à saúde está cada vez mais complexa, fragmentada e não segura. O compromisso e o empenho de profissionais, de forma individual, são atitudes imprescindíveis, porém não o bastante. Além disso, as organizações de saúde necessitam despender esforços para superar a cultura tradicional da culpa e castigo, e incentivar uma cultura do relato e do aprendizado com os erros e acidentes.   As lideranças administrativas, médicas e de enfermagem, que habitualmente vivem em um ambiente do culto à autoridade, precisam: criar condições para que a segurança do paciente seja responsabilidade de todos e não apenas de alguns e estimular uma prática colaborativa, na qual, a implementação do trabalho em equipe, seja a chave para o sucesso quando se quer alcançar a qualidade do cuidado.
  A cultura de que o conhecimento farmacológico aprofundado deve estar exclusivamente nas mãos do profissional responsável pela prescrição de medicamentos precisa ser extinta. Assim, embora a prescrição seja feita pelo médico, é necessário ler o que foi prescrito, avaliar o que está sendo feito de acordo com as condições do cliente. Há necessidade de diálogo e interação com a equipe no contexto de trabalho, pois a ocorrência de um erro vindo da prescrição médica ou da qualidade do produto pode trazer sérias consequencias para a saúde do cliente(12). O enfermeiro responsável pelo aprazamento, preparo e administração dos fármacos deve também deter tal conhecimento, pois só assim poderá prestar uma assistência segura, livre de danos e com autonomia. Desta forma, será capaz de avaliar os resultados da terapêutica medicamentosa proposta, bem como suas falhas, intercorrências e, principalmente, poderá identificar e intervir corretamente frente a qualquer evento adverso.
    Diante do exposto, percebe-se que o processo que envolve o preparo e a administração de fármacos é uma atividade que deve ser exercida e gerenciada com plena responsabilidade e consciência, independente da faixa etária do cliente, da natureza da droga ou da via de administração.

REFERÊNCIAS
1. Nishi AF. Avaliação do conhecimento dos enfermeiros em relação às catecolaminas de infusão contínua. [dissertação]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP, Universidade de São Paulo; 2007.
2. Bueno E, Cassiani SHDB, Miquelim JDL.Erros na administração de medicamentos: fatores de risco e medidas empregadas. Rev Baiana Enferm. 1998; 11(1):101-119.
3. Mendes W, Travassos C, Martins M, Noronha JC. Revisão dos estudos de avaliação da ocorrência de eventos adversos em hospitais. Rev. Bras. epidemiol.  [serial on the Internet]. 2005  Dec [cited  2009  Oct  28] ;  8(4): 393-406. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2005000400008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
4. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. NOTIVISA. Disponível em http://www.anvisa.gov.br/hotsite/notivisa/relatorios/index.htm. Acesso em  24 mar 2011.
5. Rosa MB, Perini E. Erros de medicação: quem foi? Rev. Assoc. Med. Bras.  [serial on the Internet]. 2003  Sep [cited  2009  Nov  01] ;  49(3): 335-341. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-42302003000300041&script=sci_arttext&tlng=es
6. Harada MJCS, Pedreira MLG, Peterlini MAS, Pereira SR. O Erro Humano e a Segurança do Paciente. São Paulo: Editora Atheneu, 2006.
7. Bohomol E, Ramos LH. Erro de medicação: importância da notificação no gerenciamento da segurança do paciente. Rev. bras. enferm.  [serial on the Internet]. 2007  Feb [cited  2009  Oct  28] ;  60(1): 32-36. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-71672007000100006&script=sci_arttext&tlng=en 
8. Bohomol E, Ramos LH. Percepções sobre o erro de medicação: análise de respostas da equipe de enfermagem. Rev. Latino-Am. Enfermagem  [serial on the Internet]. 2006  Dec [cited  2009  Oct  28];  14(6): 887-892. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-11692006000600009&script=sci_arttext&tlng=pt
9. Martins JT, Robazzi MLCC, Marziale MHP, Garanhani ML, Haddad MCL. Significados do gerenciamento de unidade de terapia intensiva para o enfermeiro. Rev Gaúcha Enferm  [serial on the Internet].  2009 Mar [cited  2009  Nov  29];  30(1):113-9. Available  from: http://www.seer.ufrgs.br/index.php/RevistaGauchadeEnfermagem/article/view/8883/5125
10. Anacleto TA, Perini E, Rosa MB, César CC. Medication errors and drug-dispensing systems in a hospital pharmacy. Clinics  [serial on the Internet]. 2005  Aug [cited  2009  Oct  28] ;  60(4): 325-332. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1807-59322005000400011&script=sci_arttext&tlng=en
11. Rothschild JM, Keohane CA, Cook EF, Orav EJ, Burdick E, Thompson S, et al. A controlled trial of smart pumps to improve medication safety in critically ill patients. Crit Care Med. vol. 33, 533 - 540, 2005. Available from: http://www.coesafety.bwh.harvard.edu/resourcesPages/Smart_Pumps.pdf
12. Balbino C, Caramez L, Barbosa M, Cavalcanti P, Silvino Z, Teixeira E, Simões S, Cruz I. Medication errors with the aim of patient safety: systematized revision of the literature Online Brazilian Journal of Nursing [serial on the Internet]. 2009 November 6 [Cited 2010 January 6]; 8(3):[about ## p.]. Available from: http://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/2599

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